INVerso © MMIX by FV

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10.9.11

HOLOCAUSTO URBANO ,

Cortes incrustados na minha sofrida pele… Dramas… escoriações negras do gelo…
Lamurias. Gemidos, escassas cicatrizes. Tristeza!
Não chores, dilacera cada veia, rasga a pele e ai sim, grita, mas não te lamentes, poupa-te a isso!

FVMMXI

PÉROLA ,

Ela olhou para mim, vaidosa com o seu traje de dama, apontou os seus frágeis dedos cor caramelo, para as gotas asfixiadas contra o vidro baço, turvo, da carreira, e disse-me - isto é por causa das nuvens estarem cinzentas.
Fixei não as nuvens, que não as via, mas os seus anéis, as jóias que ela mostrava com toda a vaidade de senhora grande...

FVMMXI

CARONTE ,

A minha dificuldade em seguir um caminho, permanecer no mesmo trilho, ilustra-se numa linha quebrada, uma recta que parte a cada esquina, por uma escolha, uma opção… Caminho pela berma da calçada, domino os meus passos receando a queda, a instabilidade no percorrer provoca-me arrepios, condiciona o livre arbítrio, entro num estado de desespero, estado de “apneia”, o ar condiciona em água, a vida dá lugar ao afogamento.

A asfixia, o sufoco da alma estabiliza. Respiro, sentado numa barca, um cobertor cobre-me do frio, estou em amnésia, resgataram-me, tenho isso como certo, mais nada, isso e o rio de tonalidades cor prata recortado pelo navegar da embarcação, ao contrário de mim não estava à deriva. Tudo era escuro, exceptuando a luz duma lanterna que latejava em suspensão na popa, não havia vida à vista. Vejo na proa um barqueiro, pergunto o seu nome - CARONTE

DM MMXI

16.6.11

HOJE ,

Por vezes, estar apaixonado é o sorriso no rosto ao por do sol,
Por vezes ceder é amar e o sorriso permanece enquanto falas, respiras ou mordes o lábio desesperado com o ardor seco do cieiro.
Nem sempre amar é suficiente para te alimentar, apenas se quiseres gretar e morrer gelado ao cair da noite.

DM MMXI

15.3.11

CÉU LIMPO ,

Às vezes tenho vontade de agarrar as nuvens e fazer delas as formas que quero. Não gosto quando se mostram difíceis ao meu adivinhar, muito menos quando se escondem umas atrás das outras. Este é um daqueles momentos em que me apetece alcança-las, mas elas, espertas, tampam-me o sol, deixando-me cego no apanhar, juntam-se em aglomerados e deixam o vazio, que é éter e não me diverte mais. 

DM MMXI

6.3.11

VAGAS, AS HORAS PERDIDAS

São agora 23:50,  por mais um tempo, vou lembrar nunca te ter escrito, por menos 5 minutos quero adormecer com a lembrança de te esquecer...

DM MMXI

30.1.11

FÁBULA DA LEBRE ,

Há pessoas que passam e que te fazem sentir a insegurança com "um mais que desviar de olhos." Baixa-los, fixando um ponto, que não é nada, até que sorrateiramente, como lebre fora de toca, voltas a ti. Julgas o teu agir discreto, e tem dias que sorris... Lembra-te que há sempre um alguém que te observa, ora perto, ora desgarrado de nada. Este é um processo ilusório de aproximação ao desconhecido, entre ti, e o outro que passa, distraído de ti, ou de mim, quem sabe fixado em nada.

DM MMXI

8.1.11

RIO,

A água parecia prata, prata líquida, reluzente perante o brilho dos raios. Mal conseguia olhar, como se vinte chapas de metal fossem em mim fixas, e a objectiva que outrora estava escura e incapaz de ser sensível a mim, viu-me. A película capta-me com pormenor, com cada detalhe e espessura de linhas, tal traço negro sobre giz branco. Pó. Aquele brilho, ofuscava a envolvente, à semelhança do nevoeiro, perdia-se a nitidez do volume, ficando a forma, a sombra, essa que só existe pela solidariedade da prata, que não o é, é água, que não o é, é superfície que reflecte, que não o sabe representar, que não o soa, ao inverso do que se mostra, do deixar que capte, enquanto corro, fugindo…

No momento, a ausência de gravidade é proporcionada peça oscilação do meu exterior, procuro o equilíbrio com meu corpo e a tendência é seguir a tendência que se revela ser, deixando-me cair, deixo de correr, não por deixar de acreditar querer fugir, mas por ter tropeçado e feito moça na pedra que me acolhe no chão.

Quente. Cheira a terra, a luz agora reflecte menos, a água é embebida em argila vermelha, pelo verde gasto… Olho as mãos e estão manchadas, a sangue, opacas, morta à superfície, raspadas pela opacidade da morte. Simplesmente feridas do toque, que se revelou excessivamente terno no abraçar de dedos sempre estendidos.

Deixa-me que descanse. Dormir um pouco para que perceba o significado da prosa que declamas.
Acordo mais tarde. A prata evaporara, manipulada, não passando de cinzas que queimámos e deitámos, juntos, ao espaço. Nessas cinzas havia tabaco. Havia o teu cheiro de narcisos queimados, pelas raízes, na ponta. Ficaram por lá os meus olhos, azuis pela morte, e deixei de te poder ver. Por isso agora digo, que és prata queimada ao cair, liquida ao dia…

No intermédio, esse momento que gosto de chamar pelo teu nome, és memória do meu olhar derrotado pelo embuste.

DM MMXI

20.12.10

QUANTO O VENTO TE BATE NOS ROSTO, É VAPOR



Lembro-me de nunca te ver chorar, mas a culpa não é minha, crias nevoeiro e mandas não te encontrarem. Perco-me de mim... E tu, pacientemente, que nem montra, observas-me em gelo. Proteges-te em corrosão e sinto-te áspero, o toque, a palma, os lábios.
Disse que nunca seria fácil chorares, lembro-te! Disse.

Lembro-me agora de nunca te entristecer, pois menti. As tuas lágrimas não conseguirão ser água, só neblina.

DM

11.12.10

QUERO FALTAR-TE,


Mergulho no defunto errante, como se ele fosse a causa da decadência das minhas palavras, como se ele fosse a causa do meu pensamento confuso, como se ele fosse a causa do meu ar de desmazelado, como se ele quisesse ser causa para o quer que seja em mim. É apenas cadáver inerte, quando penso, mas sabe bem ter causa para justificar a dislexia, em vez de proferir sílabas desajustadas à tua linguagem, que se revela superior, além de mim, do meu gesto e do teu olhar. Não precisas de me provar nada, morto, nem eu a ti, choremos apenas juntos a minha condição de vivo. Deixa que perceba a tua vida, e procura explicar-me como morrerei, ensina-me a ser ou poder ser causa para alguém.

DM