A água parecia prata, prata líquida, reluzente perante o brilho dos raios. Mal conseguia olhar, como se vinte chapas de metal fossem em mim fixas, e a objectiva que outrora estava escura e incapaz de ser sensível a mim, viu-me. A película capta-me com pormenor, com cada detalhe e espessura de linhas, tal traço negro sobre giz branco. Pó. Aquele brilho, ofuscava a envolvente, à semelhança do nevoeiro, perdia-se a nitidez do volume, ficando a forma, a sombra, essa que só existe pela solidariedade da prata, que não o é, é água, que não o é, é superfície que reflecte, que não o sabe representar, que não o soa, ao inverso do que se mostra, do deixar que capte, enquanto corro, fugindo…
No momento, a ausência de gravidade é proporcionada peça oscilação do meu exterior, procuro o equilíbrio com meu corpo e a tendência é seguir a tendência que se revela ser, deixando-me cair, deixo de correr, não por deixar de acreditar querer fugir, mas por ter tropeçado e feito moça na pedra que me acolhe no chão.
Quente. Cheira a terra, a luz agora reflecte menos, a água é embebida em argila vermelha, pelo verde gasto… Olho as mãos e estão manchadas, a sangue, opacas, morta à superfície, raspadas pela opacidade da morte. Simplesmente feridas do toque, que se revelou excessivamente terno no abraçar de dedos sempre estendidos.
Deixa-me que descanse. Dormir um pouco para que perceba o significado da prosa que declamas.
Acordo mais tarde. A prata evaporara, manipulada, não passando de cinzas que queimámos e deitámos, juntos, ao espaço. Nessas cinzas havia tabaco. Havia o teu cheiro de narcisos queimados, pelas raízes, na ponta. Ficaram por lá os meus olhos, azuis pela morte, e deixei de te poder ver. Por isso agora digo, que és prata queimada ao cair, liquida ao dia…
No intermédio, esse momento que gosto de chamar pelo teu nome, és memória do meu olhar derrotado pelo embuste.
DM MMXI